Erasmo e um Bad Block Fake!
Embora dispense apresentações, trago SIM uma breve biografia do cara que, na moita e sem estardalhaço, é responsável direto por inúmeros grandes sucessos de Roberto. Por força de contrato assinam Roberto Carlos e Erasmo Carlos (a la Lennon-McCartney, todos sabem), porém "ele é o cara". Tudo bem: ele não canta muito bem. Mas o Roberto também. O lance aqui é sentimento, coração, experiência de vida, trilha sonora para a vida dos outros. E, além disso, o Erasmo tinha/tem aquele jeito "bandido", como disse a Rita Lee, ao afirmar que o Erasmo é o pai do rock brasileiro, que ele sempre foi bandidão, o "marginal" na Jovem-Guarda.
E não é que o tal ainda tem o displante de ganhar um prêmio como ator? É, lacrimejantes, Prêmio Coruja de Ouro como melhor ator coadjuvante por sua interpretação no filme "Os Machões", atuando ao lado de nada menos que Flavio Migliaccio e Reginaldo Farias, que além de excelentes atores sabem tudo de cinema nacional (na minha modesta opinião). E mandou bem, interpretando com os outros dois pirados, três safos que desmunhecam e vão trabalhar num salão de beleza, só pra traçar as gatas. E tá lá o Erasmo: aquele viadão enorme, com um bigodão de Rivelino-na-copa-de-70.
Espécie de "Shampoo" brasileiro - três anos antes do filme de Hal Ashby se tornar clássico instantâneo nos anos 70 - o filme explora uma realidade que, na naquela época distante, já era febre entre as mulheres: os feéricos salões de cabalereiro, visitados como continuação da sala de estar, onde o cabelo, a unha e os cremes viram nobres justificativas para a convivência - pacífica ou não - entre os seres do sexo feminino.
Nessa onda, o trio Didi (Reginaldo Faria), Telecão (Erasmo Carlos) e Juca (Flavio Migliaccio) tem por esse sexo feminino aquela espécie de furor que Nelson Rodrigues [o sempre unânime] descreveria como iracundo, quase obssessivo, antecessor em cinco minutos à gênese da humanidade. Ao conhecer a jovem Mona, que narra as maravilhas da convivência nos salões de beleza, cheios de lindas mulheres, os safos decidem entrar imediatamente para a profissão de cabelereiro.
Extremamente cuidadosos na produção, os irmãos Faria usam e abusam do auxílio luxuoso da trilha sonora de Erasmo Carlos e da onipresente e paradisíaca cidade, vista de um deslumbrante apartamento no alto da Avenida Niemeyer, onde Erasmo é visto dormindo, assediando a arrumadeira e consumindo ovinhos de codorna para melhor desfrute da vida.
O filme é diversão muito boa, ainda mais se considerar sua contextualidade. Ah, sim: foi patrocinado pela Helena Rubinstein. Direção de Roberto Faria.
Começo da carreira
Na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, o garoto Erasmo Esteves cresceu cercado por elementos que tornariam sua identidade musical singular. Já adolescente, fez destacar sua personalidade no meio de um bando de fãs de rock´n´roll e bossa nova que se reunia no hoje famoso Bar Divino, na Rua do Matoso. Tim Maia e Jorge Ben, ambos maníacos por música, faziam parte dessa turma. Logo depois, conheceu o capixaba aspirante a cantor Roberto Carlos, quando do concerto de Bill Haley no ginásio do Maracanãzinho. Aquela visão do herói do rock americano em solo brasileiro abriu a mente de Erasmo: de volta ao bairro, formou os Snakes com os dissidentes de outro grupo local, os Sputniks - que encerraram atividades após lendária briga entre dois de seus integrantes, Roberto Carlos e Tim Maia.
O grupo vocal de Erasmo estrelou algumas aventuras no underground do mercado musical, até ser contratado pela gravadora pernambucana Mocambo como "concorrentes" dos Golden Boys. Na Mocambo, os Snakes gravaram um bolachão de 78 RPM e também um compacto duplo em 1960, antes de chegarem, por fim, a um único LP, “Só Twist”, pela CBS em 1961. Como nem nesta oportunidade o grupo alcançou o sucesso, seu final foi decretado.
Sem seu conjunto e sem a perspectiva de gravação como artista solo, Erasmo foi arranjar trabalho como assistente do apresentador e produtor Carlos Imperial - por intermédio de quem viria a tornar-se crooner do grupo Renato & Seus Blue Caps, em 1962. Com Erasmo dividindo os vocais com o baixista Paulo César, Renato & Seus Blue Caps publicaram seu primeiro LP para a Copacabana. Curiosamente, não muito depois, os Blue Caps acompanhariam o próprio Roberto Carlos na gravação de "Splish Splash", numa versão para o português feita por Erasmo. O sucesso do disco garantiu não só a contratação de Renato & Seus Blue Caps pela CBS, como também o nascimento da lendária parceria entre Roberto e Erasmo.
Ao mesmo tempo, Erasmo - já com o nome artístico Erasmo Carlos - tornou-se versionista para diversos artistas. Isso, somado ao sucesso de suas parcerias com Roberto, o levou no final de 1964 até a gravadora RGE (mais direcionada à MPB e ao samba), para ser o nome do selo no já disputado mercado do iê-iê-iê. O pop-rock brasileiro, que começara com o rock´n´roll dos anos 50 e havia passado pelo twist do início dos anos 60, chegava ao iê-iê-iê naquele 1964 como um reflexo comportamental local à beatlemania. A Jovem Guarda agrupou as influências do pop britânico e ganhou popularidade definitiva a partir de setembro de 1965 - quando a TV Record estreou o programa Jovem Guarda. Apresentado por Roberto, Erasmo e Wanderléa em São Paulo por três anos seguidos, o programa deu visibilidade para que Erasmo e Roberto se tornassem os principais nomes e também compositores da Jovem Guarda, com talento de sobra para garantir material de qualidade até para os colegas.
Em pouco mais de cinco anos na RGE, que se estenderam até o final dos anos 60, Erasmo gravou discos com acompanhamento dos amigos Renato e seus Blue Caps, os Fevers, The Jet Black´s e The Jordans, além do Som Três de César Camargo Mariano. Participou da Jovem Guarda onde tinha o apelido de Tremendão, imitando as roupas e o estilo de seu ídolo Elvis Presley. Seus maiores sucessos como cantor nessa fase foram Gatinha Manhosa e Festa de Arromba. Com o fim do programa (e do movimento) Jovem Guarda, Erasmo mergulhou ainda mais na bossa e na MPB que vinha tangenciando ao longo dos anos.
O disco Erasmo Carlos e Os Tremendões já é um trabalho transitório na carreira do artista. O LP, de 1969, traz interpretações muito peculiares para canções de compositores da MPB - Caetano Veloso (Saudosismo), Ary Barroso (Aquarela do Brasil, lançada no filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, em que ele atua com Roberto e Wanderléa) e a dupla Antônio Adolfo e Tibério Gaspar (Teletema, canção originalmente interpretada por Regininha, sucesso por ter sido tema da novela Véu de noiva, da Rede Globo). Nessa fase de transição fez sucesso cantando Sentado à beira do caminho e Coqueiro Verde
Década de 70
Na década de 1970, Erasmo assina com a Polygram. Naquele início dos anos 70, a gravadora formou um elenco invejável de MPBistas e lá Erasmo deixaria gravados discos que bem mesclaram suas raízes roqueiras com as tendências da MPB.
A "revolução ingênua" da Jovem Guarda estava esgotada, e Roberto e Erasmo entravam em suas vidas adultas. O Rei, apesar das referências a carros e rebeldia ("120... 150... 200 Km Por Hora"), já ia fundo na fase soul-gospel ("Jesus Cristo"), e Erasmo descobrira sua persona mais poética nas belas "Sentado À Beira Do Caminho" e "Coqueiro Verde".
No ano seguinte, 1971, viria o lançamento daqueles que são, talvez, seus álbuns definitivos: Roberto Carlos e Carlos, Erasmo. Roberto chegou à fase mais introspectiva de "Detalhes" e "Debaixo Dos Caracóis Dos Seus Cabelos", escrita para Caetano no exílio de Londres, além de seu primeiro hit de motel, "Amada Amante".
O Tremendão, curtindo o casamento com Narinha, tendo viajado muito - nos dois sentidos -, e sem a pressão do estrelato, estava atento à realidade, digamos, mais alternativa e psicoativa, apesar de seu canto suave. A revolução sexual aparece em Carlos, Erasmo nas faixas "Masculino, Feminino" e "Não Te Quero Santa", e as drogas em "Maria Joana". Os músicos incluem os Mutantes (Serginho, Liminha, Ronaldo), o guitar hero Lanny Gordin (das bandas de Gil, Gal e Macalé), e o maestro Rogério Duprat.
Um who's who de compositores inclui Caetano (no malemolente arranjo de berimbau para "De Noite Na Cama"), Jorge Ben ("Ninguém Chora Mais" em versão hendrixiana), Marcos Valle e um agressivo Taiguara ("26 Anos De Vida Normal" e "Dois Animais Na Selva Suja Da Rua", com pegada soul). E, claro, Roberto & Erasmo, no modo surpreendentemente lúcido e intenso de "É Preciso Dar Um Jeito Meu Amigo", "Mundo Deserto", "Ciça Cecília", "Gente Aberta". Pra se ter uma idéia, o momento bíblico do repertório é... "Sodoma E Gomorra".
Em 1972 lançaria outra pérola: Sonhos e Memórias – 1941-1972, que reúne músicos como Azymuth, Luizão, Pedrinho, Tavito, Jorge Amidem, Lafayette (inventor do órgão iê-iê-iê), Renato e Paulo César (dos Blue Caps), Roberto (irmão de Wilson) Simonal etc., e é um dos álbuns mais geniais da história da música brasileira.
Sobre esse trabalho encontramos um depoimento do cantor e compositor Hyldon:
“O Erasmo Carlos chamou eu, Luis Vagner e Helinho para gravar um disco com ele, chegamos a iniciar a gravação. Não deu certo, mas Erasmo usou levadas que criamos nas sessões, que não foram aproveitadas no disco que ele concluiu com outras pessoas. Não lembro o nome do disco, mas a música que caracterizava a nossa marca era "Mané João" O que foi legal para mim foi que o Erasmo me convidou pra ir para Argentina e Paraguai e me nomeou diretor musical, com total liberdade para convidar os músicos que eu quisesse. Adivinha quem eu chamei? Claro, o Azymuth. Como o tecladista Zé Roberto [Bertrami] não podia ir, eu chamei o Cidinho, um pianista que havia trabalhado comigo na banda da Eliana Pittman, para substituí-lo. Foi muito bom, porque passamos quase 40 dias viajando e essa convivência com o Mamão e o Alex Malheiros [os componentes do Azymuth, com Bertrami] refletiria no nosso entrosamento na gravação do meu disco, que eu começaria a gravar no ano seguinte”.
O existencialismo prossegue em seus outros LPs - Projeto Salvaterra e Banda dos contentes. Sou uma criança, não entendo nada, Cachaça mecânica e Filho único são algumas canções de destaque no período. Pelas esquinas de Ipanema, seu LP de 1978, inclui uma impactante canção que denuncia o descaso do homem com a ecologia - Panorama Ecológico.
Anos 80
Erasmo Carlos começa os anos 80 com um projeto ambicioso. Erasmo Carlos convida... é um pioneiro projeto no Brasil. Foram 12 canções interpretadas em dueto - com artistas como Nara Leão, Maria Bethânia, Gal Costa, Wanderléa, A Cor do Som, As Frenéticas,Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Tim Maia e Jorge Ben. A faixa de abertura do álbum foi a que teve maior destaque nas rádios - Sentado à beira do caminho, com Roberto Carlos.
No ano seguinte, o LP Mulher tem uma grande repercussão, com as canções Mulher (sexo frágil) (escrita com sua mulher, Narinha)e Pega na mentira . O sucesso na mídia (que continuou com Amar pra viver ou morrer de amor, (1982)) trouxe uma cobrança para Erasmo -- assim como o parceiro Roberto Carlos (no auge do sucesso), ele deveria lançar um trabalho inédito todos os anos. Lentinha para tocar no rádio, como disse o cantor ao relembrar seus discos na época. Embora seja a década com mais lançamentos de trabalhos novos, Erasmo tem algumas ressalvas sobre os seus discos a partir da segunda metade da década - Buraco negro (1984), Erasmo Carlos (1985), Abra seus olhos (1986) e Apesar do tempo claro... (1988). O disco de 1988 seria seu último na PolyGram.
Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura, cantou, ainda que numa participação especial diminuta, no coro da versão brasileira de We are the world, o hit americano que juntou vozes e levantou fundos para a África ou USA for Africa. O projeto Nordeste Já (1985), abraçou a causa da seca nordestina, unindo 155 vozes num compacto, de criação coletiva, com as canções Chega de mágoa e Seca d´água. Elogiado pela competência das interpretações individuais, foi no entanto criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro.
Em 1989, ele ainda faria o álbum ao vivo Sou uma criança, com participações de Léo Jaime e dos grupos Kid Abelha e João Penca e Seus Miquinhos Amestrados e lançados pela gravadora pequena SBK.
Anos 90
Nos anos 90, o trabalho de Erasmo apareceu de forma bissexta na canção. Além de sempre assinar com Roberto Carlos as canções feitas para seus discos anuais, ele lançou dois discos. Homem de rua, lançado pela Sony Music em 1992, chegou a ter repercussão com a faixa-título, que fez parte da trilha da telenovela De corpo e alma, mas a canção era tema do personagem de Guilherme de Pádua, que, ao lado da esposa Paula Tomás, assassinou a atriz Daniela Perez, num crime que chocou o país. Outra gravação de destaque foi A carta, na qual Erasmo cantou com Renato Russo.
Em 1995, ele voltou a ter destaque nas comemorações dos trinta anos da Jovem Guarda, que rendeu discos e shows. No ano seguinte, Erasmo gravou o álbum É preciso saber viver, com regravações de canções de seu repertório. O destaque foi para Do fundo do meu coração, dueto com Adriana Calcanhotto.
Século XXI
Após trabalhar mais esporadicamente durante a década de 90 (quando regravou antigos sucessos, participou de homenagens à Jovem Guarda e de discos-tributos vários), Erasmo adentrou o terceiro milênio contratado pela Abril Music. Em 2001, completou 60 anos e lançou seu 22º disco, “Pra Falar de Amor”, que traz interpretações dele para canções apenas suas, além de cançòes de Kiko Zambianchi e Marcelo Camelo. O destaque é “Mais um na multidão”, dueto com Marisa Monte e de autoria de Erasmo Carlos, Marisa Monte e Carlinhos Brown. "O melhor amigo do Rei recupera, enfim, o lugar a que faz jus", saudou a revista Época. "Erasmo ainda é demais para nossos pobres corações", deliciou-se a Folha de São Paulo. O show desse álbum foi lançado depois em CD e DVD: “Erasmo Ao Vivo”, que, além de registrar um momento histórico de um mito da música brasileira, ajudou a compor um painel de sua vasta obra – com um mini-documentário contando com depoimentos de Erasmo, Rita Lee, Gilberto Gil, Wanderléa, Marina Lima, Adriana Calcanhotto, Renato Barros e Roberto Menescal.
No final de 2002, os 40 anos de carreira de Erasmo foram comemorados com o lançamento da caixa “Mesmo Que Seja Eu” – contendo toda a sua discografia no período 1971-1988, recheada de material bônus raro e inédito. No ano seguinte, ao final do 10º Prêmio Multishow de Música, Erasmo foi o grande homenageado da noite – com um prêmio especial pelo conjunto da obra. Erasmo estabeleceu parcerias novas com amigos como Roberto Frejat e Max de Castro, e no início de 2004, lançou seu trabalho mais autoral: Santa Música, com doze canções de autoria apenas de Erasmo Carlos.
Além da faixa-título, destaca-se a faixa Tim, feita em homenagem a Tim Maia, e produzido por Marcelo Sussekind. Com sua capa provocante e uma sonoridade moderna sem deixar o lado bom do som vintage, o novo trabalho confirmava o que todos já percebiam: Erasmo Carlos entrou no novo milênio com toda disposição, e – para a felicidade de todos – com o bom humor e a inteligência que sempre lhe foram peculiares
Em 2007, Erasmo novamente lançou um disco no qual recebe convidados. Erasmo Carlos convida - Volume II apresenta novos encontros musicais em que Erasmo interpreta parcerias dele com Roberto. Adriana Calcanhotto, Lulu Santos, Simone, Marisa Monte, Milton Nascimento e as bandas Skank e Los Hermanos estão entre os convidados. A faixa de maior destaque nas rádios é Olha, cantada com Chico Buarque, e tema da novela das 21 horas, Paraíso tropical (Rede Globo).
Textos encontrados na Wikipédia, e nos sites:
http://www.gardenal.org/bscene/musica/discografia.htm#erasmo (sobre o álbum “Carlos, Erasmo”).
http://pedroalexandresanches.blogspot.com/2006/01/hyldon-guitarras-violinos-e.html (depoimento do Hyldon).
http://estranhoencontro.blogspot.com/2006/11/os-maches.html (comentários sobre o filme "Os Machões").
Carlos, Erasmo (1971)

01 De noite, na cama
02 Masculino, feminino (part. Marisa Fossa)
03 É preciso dar um jeito, meu amigo
04 Dois animais na selva da rua
05 Gente aberta
06 Agora ninguém chora mais
07 Sodoma e Gomorra
08 Mundo deserto
09 Não te quero santa
10 Ciça, Cecília (tema de Ciça)
11 Em busca das canções perdidas
12 26 anos de vida normal
13 Maria Joana
14 A semana inteira (bônus)
Sonhos e Memórias: 1941-1972 (1972)

01 Largo da segunda-feira
02 Mané João
03 Bom dia ronck'n'roll
04 Grilos
05 Minha gente
06 Mundo cão
07 Sorriso dela
08 Sábado morto
09 É proibido fumar
10 Vida antiga
11 Meu mar
12 Preciso encontrar um amigo
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