Prepare seus sentidos sonoros.
Estamos em 1969.
Surge o Concorde e o Boeing 747. Cria-se a ArpaNET (embrião da Internet). Pelé marca seu milésimo gol (é mole, pêxe?!). Neil Armnstrong, da Apolo 11, pisa na Lua. ["um pequeno passo para um homem", e uma grande obsolescência até hoje para a humanidade].
Em 1969, caso não saibam (hehe) foi realizado o festival de Woodstock em uma fazenda em Bethel, Nova Iorque, durante os dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969 e, embora tenha sido projetado para 50.000 pessoas, mais de 400 mil compareceram, E A MAIORIA NÃO PAGOU INGRESSO.
The Who lança "Tommy".
Nesse anos nascem Linus Torvald (pai do Linux), Michael Schumaker, Mateus Nachtergale, entre outros.
Morrem Jacob Pick Bittencourt (Jacob do Bandolim), Ataulfo Alves, Sharon Tate (assassinada pelos "fanáticos" de Charles Manson), Costa e Silva (que Deus o tenha no lugar apropriado), e Brian Jones (que deve estar num lugar apropriado também).
Esse é o ano em que o escritor irlandês Samuel Backett recebe o Prêmio Nobel de Literatura. Ele foi o autor de "Esperando Godot", lançado em 1952 em francês. No Brasil, a encenação mais marcante (obviamente) foi a de 1969. Vejam o comentário no Wikipédia:
"Cacilda Becker junto com seu marido Walmor Chagas aceitaram o convite de Flávio Rangel para realizar, no primeiro semestre de 1969, a primeira montagem profissional do já conhecido texto de Beckett. Ela no papel de Estragon e Walmor no de Vladimir. O espetáculo foi encenado no Teatro Cacilda Becker - TCB. Durante uma apresentação diurna para uma assistência de estudantes, no dia 6 de maio, Cacilda Becker sente-se mal e é imediatamente levada para o hospital ainda em trajes do espetáculo. É diagnosticado derrame cerebral. Após permanecer em coma por 39 dias, ela morre em 14 de junho de 1969."
Encontramos o seguinte enredo de "Esperando Godot", no Wikipédia:
"Em um lugar indefinido - Estrada (caminho) do campo, com árvore, á noite (Route à la campagne, avec arbre. Soir) - dois amigos se encontram: Estragon e Vladimir. A primeira frase dita na peça, por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar:"nada a fazer" (rien à faire). Eles lá se encontram para esperar um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Os dois iniciam um diálogo trivial que só será interrompido quando da entrada de Pozzo e Lucky. O aparecimento destes assusta os amigos, ainda mais pelo modo como os dois vêm: Pozzo puxa uma corda que na outra ponta está amarrada ao pescoço de Lucky. Lucky por sua vez carrega uma pesada mala que não larga um só instante. Entende-se pela situação que Pozzo é o patrão e Lucky seu criado. Os quatros trocam palavras, cada um com seu drama pessoal, até que Pozzo e Lucky saem. Em seguida, entra um garoto para anunciar que quem eles estão esperando - Godot - não viria hoje, talvez amanhã. Fim do primeiro ato."
"O segundo ato é a cópia fiel do primeiro. O cenário é o mesmo, a menos da árvore que está um pouco diferente, com algumas folhas. Estragon e Vladimir voltam para esperar Godot, que talvez apareça nesse dia. Iniciam outro diálogo trivial, interrompido outra vez pela chegada de Pozzo e Lucky. Só que, inexplicavelmente, Pozzo está cego e Lucky está surdo. Dialogam. Após a partida destes, aparece um garoto (diferente do garoto do primeiro ato) anunciando que Godot não viria hoje, talvez amanhã. Pensam em se enforcar na árvore, mas desistem, ante a impossibilidade do ato ser simultâneo. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:
Vladimir: Então, devemos partir? (Alors, on y va?) (Well, shall we go?)
Estragon: Sim, vamos. (allons-y.) (Yes, let's go.)
Eles não se movem. (Ils ne bougent pas.) ( They do not move.)"
Conheçam; leiam; inquietem-se com o TEATRO DO ABSURDO, "um termo criado pelo crítico norte-americano Martin Esslin, tentando colocar sob o mesmo conceito obras de dramaturgos completamente diferentes, mas que tinham como centro de sua obra o tratamento de forma inusitada da realidade. É uma forma do teatro moderno que utiliza para a criação do enredo, das personagens e do diálogo elementos chocantes do ilógico, com o objetivo de reproduzir diretamente o desatino e a falta de soluções em que estão imersos o homem e sociedade.
O inaugurador desta tendência teria sido Alfred Jarry (Ubu Rei 1896).
Os seus representantes mais importantes são Ionesco, Samuel Beckett, Harold Pinter, Arthur Adamov, G. Schahadé, Antonin Artaud, J. Audiberti e J. Tardieu, na França, Fernando Arrabal, na Espanha, Günther Grass e Hildersheimer, na Alemanha.
No Brasil, destaca-se José Joaquim de Campos Leão (1829-1883), nascido no Rio Grande do Sul, conhecido como Qorpo Santo [merecedor de uma postagem "ecxclusiva-ãm"]. Cronologicamente ele é o pai do absurdo e entre suas obras estão "Certa identidade em busca de outra", "Marido extremoso" e "Mateus e Mateusa". (in Wikipedia).
Mas o que é que tem isso tudo a ver com a postagem de hoje?
ABSOLUTAMENTE N-A-D-A!!! Daí sua importância!... Mas explica muita coisa!!!!
A arte psicodélica oriunda das experiências psicotrópicas profundiram-se na segunda metade dos anos 60, quando as experimentações andavam à solta.
Lamentavelmente muitos ainda não acordaram daqueles "maus sonhos" e outros ainda continuam em suas "viagens" flash-backianas. Algo semelhante ao que aconteceu nos testes atômicos do Atol de Bikini: expuseram-se milhares de pessoas a uma força desconhecida, de forma inconseqüente, e ingênua e impensável nos dias atuais, resultando em distúrbios impensáveis e inimagináveis.
Na psicodelia daqueles tempos não faltaram gênios indomáveis que terminaram precocemente seus dias inconcebivelmente afogados em seus próprios vômitos!! Quanto não estariam construindo ainda hoje; quantas vertentes e escolas magníficas aqueles vômitos não afogaram. Sei lá... talvez, em alguns casos, o supra-sumo da expressividade genial seja o vômito.
E esse papo escatológico tem muito a ver, sim manos lacrimejantes.
Porém, voltemos ao experimentalismo musical psicodélico... Considero o psicodelismo a percepção extra-ordinária da realidade; não uma visão "maior, mais abrangente", nem tampouco o inverso. Apenas, e não menos que isso, uma percepção extra-ordinária, diferente dos padrões comuns. As portas da percepção se abrem... Isso pode acontecer com o auxílio de estimulantes que atuam na química orgânica. Esses estimulantes podem ser ingeridos de uma forma ou outra, ou podem ser produzidos no próprio organismo. O excesso de adrenalina é um exemplo simples. Existem técnicas que permitem que alguém possa alterar voluntariamente seus estados de consciência e ter percepções extra-ordinárias. Uma das formas não invasivas é por meio do som. Principalmente a AUSÊNCIA COMPLETA E ABSOLUTA DELE. O que ao final acaba parecendo uma utopia. Estudemos os fundamentos e conceitos envolvidos em "4:33" (quatro minutos e trinta e três segundos), composição de John Cage.
Desde os fundadores da civilização indiana, passando pelas civilizações pré-colombianas, chegando ao extremo oriente, encontram-se documentos que se referem a estranhos modos de se utilizar o som.
Mais recentemente, no meio ocidental, e muito especialmente, entre os estudiosos alemães e franceses, os estudos das composições sonoras e sua ação no subconsciente mostraram-se importantes e eficientes. Físicos e musicólogos uniram-se para experimentações. Escalas microtonais, musicas eletrônicas, instrumentos como o Teremin e Ondas Martenot.
O teremin é um dos primeiros instrumentos musicais completamente eletrônicos. Inventado em 1919 pelo russo Lev Sergeivitch Termen (conhecido também pela forma francesa do nome: Léon Theremin), o teremin é único por não precisar de nenhum contato físico para produzir música e foi, de fato, o primeiro instrumento musical projetado para ser tocado sem precisar de contato, pois é executado movimentando-se as mãos no ar. As Ondas Martenot são um instrumento eletrônico inventado em 1928 pelo compositor e engenheiro francés Maurice Martenot. O instrumento é formado por um teclado, alto-falante e gerador de baixa-freqüência e é um instrumento monofônico, não produzindo notas simultâneas. Esses instrumentos foram muito utilizados pelos compositores "experimentalistas" nas décadas de 1920 e 1930, dentre eles Edgard Varese e Olivier Messiäen.
Se considerarmos os experimentos sonoros de Karlheinz Stockhausen, John Cage, Pierre Schaeffer, Pierre Henry, Michel Colombier, Alvin Lucier entre outros, veremos neles os avós e pais das "crias" dos anos 60-70. E, se é evidente o surgimento dos movimentos de música psicodélica e progressiva na Inglaterra e EUA dos anos 60, é importante salientar que sua grande vertente formou-se, especialmente, na Alemanha, Áustria, Hungria e França no final dos anos 60 e início dos anos 70, devido, em grande parte, ao maior engajamento sócio-político dos movimentos undergrounds europeus, tais como as comunas hippies alemãs e os PROVOS, mais libertários, de Amsterdã. Muitos desses movimentos surgiram como resultado do ascetismo e da repressão do pós-guerra, que transformaram o entusiamo juvenil em violência, dando origem a movimentos como os "halbstarke" na Alemanha; "teddyboys", "mods" e "rockers", na Inglaterra; "vitelloni", na Itália; "blusons noir", na França; "skunafolke", na Suécia; "anderupen", na Dinamarca; "nozem", na Holanda; no Japão, "kaminari-zoku"; na Espanha, "gamberros"; e por aí vai. Até nos países socialistas existiram os "stiliague" soviéticos e os "hooligans" polacos.
Que salada russa, ein!!
E desse miolo de culturas e contra-culturas, experimentalismos, novas tecnologias e rompimentos de paradigmas, encontramos o ROCK CHUCRUTE. Ops, melhor: krautrock, com suas loucuras e sintetizadores. Dele já foi falado aqui no LP.
Já postei a "semente original" do krautrock (assim considerado por alguns estudiosos), quando disponibilizei o álbum do Amoon Düüll, "Psychedelic Underground".
Phallus Dei, do Amon Düüll II é uma das quatro mais importantes e viscerais obras que formaram o movimento krautrock na Alemanha nos meados dos anos 70. As outras são: Psychedelic Underground e Kollapsing, do Amon Duul, e Birth Control, do Birth Control.
Comentários sobre as músicas do álbum "Phalus Dei", de Amon Düüll II, de 1969:
1. KANAAM: todas as letras do álbum são em alemão (Sie sprach deutsch? Nein?, então vá aprender, pois o colonialismo inglês mundial globalizado tem empurrado a lingua inglesa goela abaixo sem precedentes. Tanto que depois a banda teve que gravar em inglês, assim como a maioria, inclusive a maravilhosa "Omega" (que o Edson postou há pouco), que gravou seus primeiros álbuns em húngaro mas teve que ceder ao idioma ocidental oficial (embora continuem gravando suas versões em húngaro; legal né?, respeito à lingua mãe).
A música já entra num estilão tribal, com um riff de cítara, um baixo que cria um clima de "desfile de centuriões romanos", um declamado e um coro de vozes maravilhoso, com uma bateria alucinada quebrando os pratos, em seguida voltando à linha inicial. A mescla de estilos, ao meu ver, é tão rica, que a gente viaja pela Índia, Coréia, Países Árabes, o ácido rock inglês, um crescendo estonteante com xilofones no meio e pronto. Sensacional. A gente já quer ouvir o resto.
2. DEM GÜTEN, SCHÖENEN, WAHREN: é muito doida. O vocal do Shrat é hilário! À la "Hocus Pocus" (do Focus, que é uma delícia!). Em seguida (1'45") vem o "plágio original" de uma música do Som Imaginário (se não me falha a memória, com os vocais tresloucados do Zé Rodrix ao fundo; me corrijam, please!). Pérola! John Weinziert na guitarra, Dave Anderson no baixo e Peter Leopold na batera dão show.
3. LUZIFERS GHILOM: A mistura de ritmos é ótima. O baixo excelente. O vocal, hilário em certas partes, fazem lembrar uma música "ecxcelentièmm" do cancioneiro popular recente do Brasil, onde a "ecxelentièmm" letra diz "Qué dançá? Qué dança? O tigrão vai te ensiná!". Lamentável a associação, eu sei. Mas pelo menos pode-se utilizar de forma inversa: ao ouvir a "pérola brasileira", poderemos lembrar do som do Amoon Duul. Putz, sei lá. Tem coisa que vai, mas deixa o cheiro... tá certo?
4. HENRIETTE KRÖETENSCHWANZ: Bem ritmada sobre a base de um rufar marcial de caixas, tem muito de Edgar Varèse em "Poeme Èletronique", ou Stockhauzen em "Stimung (Hypherion)". Experimentalismo da melhor qualidade.
5. PHALLUS DEI: Essa é ainda mais experimental que a anterior. Até me corrijo: tem muito mais de Varèse e Stockhauzen. O baixo, após os primeiros 3 minutos, é poderoso. O vocal é bem lírico, onírico. O violino dá um efeito todo especial no meio da música. Algo meio irlandês, celta. E vai bangô, num ritmo tribal, criando uma alusão a algum rito pagão (sabe-se lá... Sie sprach deutsch?). Quem entende bem alemão vai concordar comigo: não dá pra entender nada!! O negócio e dançar e gritar, sei lá em que trajes!! Mas o som é doido, véio. Aos 14' dá-se a impressão que todo mundo caiu extenuado: a música dá uma silenciada, uma acalmada. Mas tem mais, muuuito mais. Daí vem um heavy, lembrando as tradicionais músicas alemãs (mas lembra bem longe) regadas a cervechinha tão brasileira(!). O final vai terminando lentamente, guitarra, baixo, bateria, violino, coral majestoso, num ritmo firme, constante, em fade-out. Cara, são 20'47" de sonzêêêra, demais.
É isso. Amon Düüll II (com tremas nos "us" e 2 em romanos). Agora a gente entende porque eles são os principais expoentes de um movimento que revolucionou o cenário do rock progressivo.
Espero que gostem.
AMON DÜÜLL II
Phalus Dei.

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